SUPER LOTAÇÃO E DESIDRATAÇÃO
Zig Festival 2026: entre uma curadoria impecável e problemas que marcaram a experiência do público
Douglas Barbosa · 13 de outubro de 2026

Entre uma curadoria elogiada e relatos de superlotação, falhas na estrutura e problemas de atendimento, a edição de 2026 do Zig Festival levanta questionamentos sobre segurança, organização e o futuro do evento.
Com sua primeira edição em 2024, o Zig Festival se tornou uma promessa muito gratificante para o público de São Paulo. Com uma curadoria impecável de artistas que, às vezes, não possuem o reconhecimento ou os contatos necessários para serem incluídos em grandes festivais, o evento foi criando experiências e expectativas ao longo dos anos.
Com a divulgação do line-up de 2026, não foi diferente. O festival estava alcançando novos públicos e, principalmente, enfrentando novos desafios. Trazer uma cantora que estava prestes a encerrar sua carreira e que chegou a enfrentar dificuldades para esgotar uma casa de shows no centro de São Paulo parecia apenas um golpe de sorte. No entanto, seu álbum estourou, ela se apresentou no Lollapalooza Chicago e no Coachella e, pouco tempo depois, seu ingresso já valeria ouro para muitas pessoas que apostaram no lote da pré-venda.
O festival cresceu rapidamente, saiu da zona de conforto e o que podemos dizer sobre tudo isso?
IMPRENSA
Sem uma assessoria de imprensa, o festival divulgou um formulário por meio dos Stories. No entanto, as respostas negativas nunca chegaram aos interessados. Segundo a devolutiva, apenas as pessoas aprovadas receberiam uma resposta, o que dificultava a situação de quem não tinha contato com outras pessoas que também haviam sido credenciadas.
Não havia sala de imprensa nem sequer o cuidado necessário com os profissionais que trabalharam no evento. Até mesmo as entrevistas com os artistas passaram a ser limitadas e organizadas pela própria imprensa, em contato direto com as gravadoras ou os representantes dos artistas.
Em um festival que cresce e passa a atrair cada vez mais público, artistas internacionais e atenção da mídia, a comunicação com os profissionais também precisa acompanhar essa evolução. O credenciamento, a organização das entrevistas e a disponibilização de um espaço adequado para o trabalho jornalístico fazem parte da estrutura de um evento desse porte.
A falta de uma comunicação mais transparente com os profissionais credenciados acaba dificultando o planejamento da cobertura e prejudicando o trabalho de quem está ali para divulgar o próprio festival e seus artistas.
LINE-UP
Uma das coisas que diferenciam o festival dos demais é a curadoria. Realmente, ver Vita, Linn da Quebrada, Getúlio Abelha e Katy da Voz em um mesmo festival é, às vezes, um desafio. Ainda assim, o evento sempre ofereceu oportunidades para que os fãs pudessem assistir a shows bem estruturados de seus artistas favoritos.
Entre as atrações internacionais, a grande aposta foi Slayyyter, mas as surpresas ficaram por conta da dupla Haute & Freddy e de Rochelle Jordan. O carisma da cantora turca INJI também foi um destaque.
Foi uma forma muito interessante de atrair um público fiel para esses artistas e mostrar aos futuros produtores que existe espaço para construir projetos interessantes por aqui, afinal, há público disposto a pagar por essas experiências.
Esse é justamente um dos maiores méritos do Zig Festival: oferecer espaço para nomes que nem sempre ocupam os principais palcos dos grandes eventos brasileiros. A curadoria consegue aproximar diferentes cenas musicais, apresentar artistas internacionais que ainda não possuem uma base tão ampla no país e criar oportunidades para talentos nacionais.
O problema é que uma programação bem construída precisa estar acompanhada de uma estrutura capaz de receber o público que ela atrai. Um line-up forte pode ser responsável pelo crescimento de um festival, mas também exige planejamento para que o sucesso artístico não se transforme em uma experiência comprometida por falhas de organização.
SOLD OUT NO PAVILHÃO
Imagine ter uma grande artista em ascensão no seu festival e acreditar que o público se dividirá para assistir a um DJ residente em outro palco. Para piorar a situação, imagine fechar a outra pista, sem nenhuma atração capaz de competir pela atenção do público. A expectativa, então, é que o espaço destinado ao show principal comporte todas as pessoas presentes. Algo que, na prática, não aconteceu.
Enquanto Slayyyter pedia mais animação da plateia em diversos momentos, o público lutava para conseguir respirar, suava durante as músicas e ainda sentia gotas de água escorrendo pelas paredes do pavilhão. Após a despedida da cantora, uma multidão começou a se arrastar em direção às saídas mais próximas. O que restou foi o cenário de uma luta de horas para suportar as condições daquele ambiente.
Havia caixas de água disponíveis para atender às pessoas que passavam mal, inúmeros copos jogados no chão e frequentadores relatando desconforto e preocupação com a hidratação. Em meio a tudo isso, rostos brilhavam de suor por todos os lados.
Os banheiros do pavilhão também refletiam a situação. Além de serem ocupados por pessoas que enfrentaram dificuldades para circular durante o show em razão da superlotação, o ambiente parecia uma sauna. Os espelhos embaçados não conseguiam esconder a situação alarmante que se instalou por ali.
A experiência levantou questionamentos importantes sobre a capacidade do espaço, a distribuição do público e a preparação da organização para receber uma quantidade tão grande de pessoas diante de uma atração de grande apelo.
Quando um festival vende ingressos para um show com demanda elevada, é necessário considerar não apenas a capacidade total do local, mas também a concentração de pessoas em determinados pontos, os acessos às saídas de emergência, a circulação entre setores e a possibilidade de atendimento rápido em situações de mal-estar.
O sucesso de uma apresentação não pode ser medido apenas pela quantidade de ingressos vendidos ou pela reação da plateia. A experiência precisa oferecer condições adequadas para que todos consigam aproveitar o show sem colocar a própria segurança em risco.
AMBULATÓRIO E A MORTE DE UM FREQUENTADOR
Os relatos sobre o atendimento médico ganharam uma dimensão ainda mais grave após a divulgação da morte de Pedro Felipe Higa Felizatto, de 28 anos, que passou mal durante o Zig Festival, realizado em São Paulo no sábado, 10 de outubro de 2026.
Segundo relatos de amigos repercutidos por veículos de comunicação, Pedro teria passado mal durante o evento. As manifestações também levantaram questionamentos sobre o calor, a superlotação e o atendimento oferecido no local.
De acordo com informações divulgadas sobre o caso, a Polícia Civil de São Paulo passou a investigar a morte como suspeita. O caso foi registrado no 2º Distrito Policial, no Bom Retiro, e as circunstâncias do falecimento ainda precisam ser esclarecidas.
É importante ressaltar que a investigação não representa, por si só, uma confirmação de negligência ou de responsabilidade da organização. Até que as autoridades concluam a apuração, não é possível estabelecer uma relação causal entre as condições do festival e a morte do frequentador.
Ainda assim, o caso amplia a gravidade dos questionamentos sobre a estrutura do evento. Quando frequentadores relatam dificuldades para respirar, calor excessivo, superlotação e problemas no atendimento médico, a discussão deixa de ser apenas sobre conforto e passa a envolver a segurança de quem comprou um ingresso e confiou na organização para aproveitar a experiência.
Além do caso de Pedro, frequentadores relataram demora no atendimento médico. Outros afirmaram que não teriam conseguido receber assistência devido à suposta ausência de um médico no local. Esses relatos precisam ser apurados e confrontados com as informações oficiais sobre a equipe médica e os protocolos de emergência disponibilizados durante o evento.
A investigação deverá esclarecer as circunstâncias do atendimento prestado a Pedro, os recursos médicos disponíveis e os procedimentos adotados diante da emergência. São questões que exigem transparência, tanto para a família quanto para as pessoas que estiveram presentes no festival.
Independentemente do desfecho da investigação, os relatos tornam indispensável uma reflexão sobre a preparação de eventos de grande porte. A estrutura médica precisa ser dimensionada de acordo com o público esperado, com profissionais capacitados, equipamentos adequados e condições para atender rapidamente quem apresenta sinais de mal-estar.
PÚBLICO
Com o crescimento do evento e o aumento do interesse do público, o Zig Festival encarou, pela primeira vez, uma audiência com um perfil bastante diferente: o público das divas pop.
Pessoas chegaram ainda pela manhã para enfrentar a fila do festival. Muitos não pretendiam circular entre os palcos, conforme a proposta inicial do evento, mas sim adotar um comportamento mais comum em festivais como Lollapalooza e Rock in Rio: permanecer na grade até a apresentação da atração principal.
Esse cenário também evidenciou falhas de logística e levantou questionamentos sobre a estratégia de abrir cada vez mais lotes de ingressos. O valor do ingresso chegou a R$ 500, e, mesmo assim, houve pessoas que não conseguiram assistir ao show.
A chegada de um público diferente não deveria ser tratada como um problema em si. Pelo contrário, conquistar novos frequentadores é um sinal de crescimento e demonstra a capacidade de um festival de ultrapassar as fronteiras de sua comunidade original. A questão está em compreender como esse comportamento influencia a circulação, a distribuição das pessoas e a ocupação dos espaços.
Se uma atração concentra a maior parte do público em um único palco, a organização precisa antecipar esse movimento e preparar uma estrutura compatível com a demanda. Não basta presumir que os frequentadores vão se distribuir igualmente entre as apresentações, principalmente quando há uma artista com grande apelo popular na programação.
Diante de tudo isso, também é necessário falar sobre pessoas que parecem esquecer qualquer noção de respeito ao próximo. Há quem recorra a diferentes entorpecentes para se divertir a ponto de prejudicar a experiência alheia, empurrando, machucando e agindo como se tivesse o direito de fazer o que bem entende. A falta de consciência coletiva e de respeito às outras pessoas também compromete a experiência de quem está ali para aproveitar o festival.
Entretanto, é importante separar os comportamentos individuais das responsabilidades da organização. O desrespeito entre frequentadores pode agravar situações de desconforto, mas não elimina a necessidade de planejamento, controle de acesso e medidas de segurança adequadas por parte dos responsáveis pelo evento.
Um festival é uma experiência coletiva. Isso significa que tanto a organização quanto o público precisam assumir suas responsabilidades para que todos possam aproveitar a programação em condições seguras.
NOTA OFICIAL E POSICIONAMENTO DA ORGANIZAÇÃO
Após a repercussão das reclamações, o Zig Festival publicou uma nota sobre os acontecimentos da edição de 2026. A organização afirmou lamentar profundamente os problemas relatados e disponibilizou um canal de contato para que o público pudesse encaminhar reclamações e descrever as situações enfrentadas durante o evento.
O comunicado também indicou que as manifestações seriam analisadas e que um pronunciamento mais detalhado seria divulgado posteriormente.
A iniciativa representa um primeiro posicionamento diante das críticas, mas deixa questões importantes em aberto. Entre elas estão as condições de lotação do espaço, a organização dos fluxos de circulação, a estrutura de atendimento médico e a assistência oferecida às pessoas que passaram mal durante o evento.
Em situações como essa, um comunicado geral é apenas o começo. O público precisa de esclarecimentos objetivos sobre as ocorrências, as medidas adotadas e as mudanças previstas para evitar que os mesmos problemas se repitam.
Também é importante que a organização se manifeste especificamente sobre o falecimento de Pedro, respeitando a privacidade da família e o andamento da investigação policial. O esclarecimento das circunstâncias do caso depende das autoridades competentes, mas a transparência sobre os protocolos de segurança e atendimento do evento é fundamental.
Até o momento considerado nesta apuração, não havia uma conclusão oficial sobre as circunstâncias da morte nem sobre eventual responsabilidade do festival. O caso permanece sob investigação, e qualquer afirmação definitiva sobre negligência seria prematura.
O Lente Oposta permanece aberto a manifestações da organização e das autoridades responsáveis pela apuração, para que novos esclarecimentos possam ser incorporados à matéria.
EDIÇÃO FUTURA
Infelizmente, diante dos diversos acontecimentos e relatos, fica difícil imaginar uma próxima edição do festival sem que haja uma reflexão profunda sobre tudo o que ocorreu. A edição de 2026 mostrou que o crescimento de um evento exige mudanças estruturais, planejamento e profissionalismo para acompanhar a demanda.
Os problemas relatados em São Paulo já seriam suficientes para exigir respostas e uma revisão dos procedimentos adotados. A situação se torna ainda mais delicada diante da investigação sobre a morte de um frequentador, que precisa ser conduzida com seriedade e sem conclusões precipitadas.
Também circularam relatos de violência relacionados à edição do Rio de Janeiro, incluindo uma alegação de esfaqueamento na saída do evento. Essa informação, porém, precisa ser confirmada por fontes confiáveis antes de ser tratada como fato estabelecido ou utilizada para sustentar conclusões sobre a segurança das diferentes edições.
Que tudo isso sirva de aprendizado para que, caso haja uma próxima edição, as coisas sejam feitas com a seriedade, o planejamento e o profissionalismo que a dimensão do evento exige.
Não basta contratar os melhores artistas e colocá-los em qualquer espaço para vender ingressos. A experiência também importa, e muito. O público precisa sair satisfeito por ter vivenciado momentos inesquecíveis, com a tranquilidade de saber que sua segurança foi considerada em todas as etapas do evento.
O Zig Festival tem um diferencial importante em sua curadoria e na oportunidade que oferece a artistas de diferentes cenas musicais. Perder essa identidade seria lamentável. Mas preservá-la também significa reconhecer que a qualidade artística precisa caminhar junto com a responsabilidade de receber o público.
Uma nova edição só poderá recuperar a confiança dos frequentadores se vier acompanhada de respostas claras, mudanças concretas e um compromisso demonstrável com a segurança e o bem-estar de todos.
E, honestamente, a experiência foi inesquecível para muitas pessoas, sim, mas no pior sentido da palavra.
