TURNÊ DE EMOÇÕES... OU NÃO
Memórias Póstumas: a música como válvula de fuga, inclusive temática
Arthur Chryss · 30 de setembro de 2026

Natural do interior de São Paulo, o cantor Jão alcançou um marco histórico em sua carreira na última sexta-feira (25/09) ao bater o recorde de público do Nubank Parque.
Dando início à turnê Memória Póstumas, do álbum homônimo, que marca o seu retorno oficial aos palcos após um período de hiato e a dolorosa perda de seu pai, o músico confirmou novamente ter uma legião fiel de fãs e admiradores de seu trabalho.
Desde o anúncio do álbum, em julho deste ano, ficou muito claro o tema que o artista iria explorar após a sua tetralogia de discos sobre as vivências de um“menino do interior” na cosmopolita Grande São Paulo: a morte. Tema que, de fato, é retratado ao longo de algumas músicas do álbum e destacado durante os cinco teatrais e cansativos monólogos da turnê...
Gostaria de adiantar que, apesar de ser um grande fã e admirador do trabalho do cantor há alguns anos, não fui cativado pelo novo projeto desde a primeira vez que escutei no evento organizado para audição do álbum no Vale do Anhangabaú. Mas ainda sim fui de peito aberto para o show, com a vontade genuína de que essas músicas crescessem em mim no ao vivo.
Com sua clássica contagem regressiva e fogos de artificio encantando a plateia, temos a primeira quebra de expectativa e ritmo do espetáculo logo na abertura, quando a atriz e dramaturga, Isabel Teixeira, interprete da Pilar na novela “Quem Ama Cuida”, surge ironizando a plateia que esperava pelo cantor e recitando o primeiro monólogo do show. Embalado pelo o que podemos considerar o maior hit desse projeto, o espetáculo finalmente se inicia com “Aurora” - escolha essa que acho ousada - e temos o primeiro vislumbre de uma das coisas mais legais do palco dessa turnê: as performances no espelho d’água.
Com o encerramento do primeiro bloco, temos a primeira de uma série de falhas presentes neste novo espetáculo... Após uma sequência questionável de músicas – infelizmente me incomoda muito a organização e certas escolhas de músicas para essa setlist - temos mais uma vez o ritmo do show quebrado pela “Morte” surgindo com mais um monólogo. Entendo que esse ponto tenha sido algo amplamente admirado pelos fãs e pela crítica, e que é essencial para a narrativa da história montada para essa turnê. Mas para além da dificuldade de entender e ouvir o texto, considero que havia outras maneiras mais dinâmicas de contar a história de uma forma envolvente para um público de mais de 50 mil pessoas em um estádio – como por exemplo, interlúdios pré gravados.
Assim como no álbum, temos um foco pouco significativo na temática da morte ao longo da setlist. No encerramento do bloco que supostamente retrataria a perda, “Literatura” trás uma carga extremamente sentimental e emotiva, e presenteia o artista com o que talvez seja um dos momentos mais especiais de sua carreira até aqui. Entretanto, somos surpreendidos com Meninos e Meninas na sequência, mais uma vez, quebrando totalmente o clima e ritmo do show. Situação essa que faz você se questionar sobre qual história aquele show realmente quer te contar... Mas é aqui que temos o melhor momento desse show, a participação surpresa da Deputada FederalErika Hilton. Incitado por Jão, o momento tende a ser repetido em outros shows da turnê, recém anunciada, com outros convidados especiais.
Talvez prejudicado pela falha técnica apresentada na estrutura aérea central, que supostamente seria acesa, o novo show entrega uma estrutura de palco que não tem o mesmo impacto visual que vimos na SUPER TURNÊ… Com um palco 360° esperávamos poder contemplar o cantor ao longo de todo o show, independente de qual fosse o seu setor e posição no estádio, correto? Errado. Acompanhando a sequência de erros nesse show, Jão passa cerca de 70% do tempo em apenas um dos lados da estrutura, como se o palco tivesse o estilo italiano clássico. Fica aqui como dica para os fãs que irão nas próximas datas que a melhor escolha seja não ir de pista nesse show...
Como saldo final, apesar de entender e gostar da proposta de um show conceitual e teatral, a produção do concerto parece não ter entendido a essência de shows desse estilo projetados para grandes públicos. Além disso, essa turnê sofre de algo que Luísa Sonza tem sofrido desde o encerramento da era DOCE 22, a dificuldade de encaixar suas músicas novas em meio ao repertório já consolidado. Assim como o álbum, é nítido o receio de entrar a fundo na temática da morte, do luto, e a necessidade de deixar tudo o mais leve possível ao trazer outros assuntos para a narrativa. Com uma setlist bagunçada, faltando músicas que casariam perfeitamente com a narrativa – estou falando de você, “Olhos Vermelhos” -, monólogos cansativos e uma coreografia de palco que não contempla todo o público, Jão entrega o que talvez seja o seu show mais fraco, para a obra mais fraca de sua discografia.
