memórias não tão póstumas
Crítica: Memórias Póstumas de Jão se torna cartas de amor clichês em produções nada atraentes
Douglas Barbosa · 27 de agosto de 2026

O cantor Jão retornou após um ano de hiatus após o sucesso da era "SUPER" esgotando estádios e também batendo recordes de venda de ingressos.
Havia diversos boatos sobre seu retorno na internet, todos sentiam falta de Jão, o cantor que havia entrado em um hiato para cuidar da sua imagem e saúde acabou tendo que passar também pela dor da perda. Seu pai, infelizmente, faleceu e deixou os fãs mais preocupados também com sua carreira e qual rumo ele tomaria. Segundo o cantor, isso deu um gás para que eu pudesse compor músicas e criar mais uma narrativa onde precisaria ser exposta.
E assim nasceu o álbum "Memórias Póstumas", com uma fotografia impecável de Hugo Comte, que também é responsável por capas como as de Dua Lipa e da cantora Tinashe, um trailer de tirar o fôlego com um monólogo referente à perda e ao luto, o que gerava expectativas de ser um álbum onde o cantor iria explorar temas mais profundos. Quando se via a tracklist com os créditos de produção, Jão fez questão de escrever basicamente todo o álbum e também ficar responsável pela produção, o que tornava tudo muito pessoal e curioso.
Com uma audição de dar inveja a artistas sem budget, o cantor criou uma atmosfera de velório para saudar sua nova criação em meio à cidade cinza de São Paulo, flores em uma colina e sua paixão insaciável pelo performático. O olhar dele é certeiro para tudo o que cria, pois tudo abre uma porta para ser comentado, seja a forma como posiciona seu cabelo, como olha e até mesmo como inicia um novo projeto, sendo ele colocando um CD em um rádio para ecoar as primeiras músicas no Vale do Anhangabaú.
Ao ouvir o álbum e passear pelas faixas, há uma decepção. Jão teve o tempo que precisava para amadurecer, mas, pelo visto, seu público já comprou uma imagem onde ele precisa vender completamente. Há uma fórmula batida de criar as melhores frases para que possam utilizar em suas fotos do Instagram, em vez de algo que realmente toque o coração e possamos acessar um lado mais maduro do cantor.
Não é apenas falar que padarias fizeram pães e hospitais fizeram mães, mas sentimos que o cantor se limita muito a ser real até mesmo quando fala sobre seu consumo de drogas em músicas como "Doce" ou "Meninos e Meninas", ou sobre orgia quando escreveu "Hotel San Diego".
Chega um momento do álbum que, mesmo com tanto a se dizer, Jão volta a falar sobre o amor, sobre relacionamentos, e não queremos dizer que está errado falar sobre esses assuntos, mas a atmosfera prometida para o projeto se tornou apenas algo estético. A única dor que ele projeta é sobre criar filhos com quem ele ama, sobre pensar em um dia em que ele precisa ser melhor para quem o ama.
E, principalmente, na faixa "João", escrita por Pedro Tofani, atual relacionamento do cantor, é como se devolvesse uma resposta para toda uma narrativa de que esses homens se odeiam de alguma forma, mas, no final de tudo, dão certo e continuam balanceando o talento nato de criar, vender e emocionar públicos com a mesma equação.
Apesar das falhas, Jão realmente continua sendo um caso curioso a seguir. Seus shows realmente emocionam públicos, e ele permanece sendo um dos artistas mais carismáticos com seus fãs, respeitando o legado de seu trabalho desde o início. O esperado é que ele cresça conforme seu público for crescendo, para que, em algum momento, as identificações de seu trabalho não passem apenas de uma nostalgia passageira, e sim algo mais atual e visceral.
