A RÉGUA SEMPRE AUMENTA
Katy da Voz e As Abusadas provam que estão longe de atingir o limite
Douglas Barbosa · 06 de novembro de 2026

O álbum "PARA SEMPRE ATORMENTADAS Y REMIXADAS" foi lançado agora nesta sexta-feira com 18 faixas e com participações inéditas de cantores e produtores da cena underground brasileira.
Antes de falar sobre este novo trabalho, que finaliza uma trilogia de álbuns de remixes, já adianto: Katy da Voz e As Abusadas são as artistas mais interessantes do momento.
Por qual razão? Bem, Katy da Voz lançou, em outubro do ano passado, seu segundo álbum de estúdio, "A VISTA", que se tornou um grande sucesso. Participou do Halloween da Pabllo como peça-chave da performance e poderia ter seguido com a turnê do álbum, que acaba de completar apenas um ano.
Mas sua cabeça e criatividade, ao lado de Palladino Proibida, não param. Com uma turnê europeia confirmada no final do ano, o intuito era levar uma apresentação especial para celebrar essa nova fase da carreira. Foi nesse contexto que surgiu o ousado EP "Sandra Eletrônica", que ganhou ainda mais notoriedade por suas faixas provocantes e pelo visual carismático do refrigerante paulista Dolly.
Com "FRANKFURT", nasceu um desabafo diante da turnê que não aconteceu, mas também um spoiler de que Katy da Voz ainda tinha algumas cartas na manga, que seriam reveladas agora, em novembro.
O álbum "PARA SEMPRE ATORMENTADAS Y REMIXADAS" finaliza uma trilogia de trabalhos que trouxeram grandes conquistas para o grupo, como o aumento da popularidade com a faixa remixada ao lado da cantora Urias e o amadurecimento das integrantes no cenário musical.
As Abusadas começaram a trabalhar com profissionais envolvidos nas mais diversas áreas artísticas, como grandes fotógrafos e diretores de arte, que mergulharam na mente criativa de Katy da Voz para entregar trabalhos excepcionais e visuais autênticos, repletos de referências culturais e cinematográficas.
Desta vez, não foi diferente. Na artwork principal, Katy da Voz e Palladino Proibida resgatam a icônica história do ET de Varginha. Os visuais também puxam referências da moda oitentista, com figurinos muito bem trabalhados, fones com fio e revistas de moda e fofoca.
Mas a preocupação sempre foi a mesma: como trazer algo novo sem soar repetitivo? Para elas, essa preocupação parece nunca ter existido. Você escuta "VTNC" e pensa que "fodacy" tentará se encaixar em mais uma música despretensiosa para se tornar um hino libertador na pista. Porém, percebe que Katy da Voz explora cada vez mais os instrumentos, a ponto de fazer imaginar que, em algum momento, será necessário contar com uma banda.
As letras estão mais elaboradas, as histórias estão mais envolventes e até a faixa "Vitor", que abre o álbum, carrega uma marca explícita, mas também resgata muito do sentimentalismo de "Diz Aquendei", presente em "Sandra Eletrônica".
É libertador ver o espaço dado a outros artistas, que constroem novas versões das músicas não apenas por meio da produção, mas também da composição. A voz de Jaloo em "DISCO INFERNO" soa como o elemento que faltava para completar aquela curta faixa do segundo álbum de estúdio.
Davi Sabbag entrega vocais poderosos e líricos, que nos fazem lembrar o quanto seu talento é importante para a música. Já "SENSAÇÃO DE...", com Zumbicore, Dornelles, Malharo, Jonas Kaik e Kalef Castro, apresenta novos versos que fazem você revirar os olhos diante da maneira como os artistas se entrosam e dominam a faixa sem tirar o protagonismo das Abusadas.
Potyguara Bardo, ao lado de DANDARONA, em "Navalha", é uma combinação totalmente inesperada que funciona. Percebemos que, para esses artistas, o trabalho também representa uma exploração de diferentes formas de composição e interpretação vocal. Afinal, quem imaginaria ouvir Potyguara em uma produção tão insana?
Mas não foi apenas de remixes que elas decidiram preencher a tracklist. Ao lado do single "FRANKFURT", foi incluída a faixa "EXORCISMO", que ganhou um clipe com uma direção artística grandiosa e uma produção muito bem construída, com coral e elementos de distorção que conversam diretamente com a estética de terror pela qual Katy da Voz é fascinada.
Logo em seguida, temos "Buceta Assassina", com Bia Soull. Em uma palavra: TESÃO. Bia já é conhecida por explorar o erotismo em suas composições sem ocultar detalhes, e essa faixa precisava nascer de alguma maneira. É possível sentir o carinho do PZZS na produção. Ao ouvir tudo, a sensação é de algo chique, bem executado, calculado e com propósito.
O grande destaque, na minha opinião, fica para o grupo Taj Ma House, que já realizou trabalhos incríveis ao lado de Vita em seu álbum "Vita's House", assim como com Kaya Conky no álbum "Maria Boa". Aqui, a composição parece ter saído de uma caneta em chamas, gravada sobre vozes angelicais, verdadeiramente abençoadas pelos anjos. Ouvir Katy da Voz pronunciar seu bordão em determinado momento, como nos primórdios, e logo depois escutar a batida de "Eva", de LC, ecoando nos fones de ouvido ou pelas caixas de som é simplesmente maravilhoso. Não há defeitos. Não há muito o que dizer sobre essa faixa além de senti-la.
Outro ponto que merece destaque é Palladino Proibida. O que ela tem feito com seus vocais, principalmente em "Inocência", representa um crescimento artístico de fazer o pescoço doer de tanto olhar para cima. É impressionante perceber o nível que ela está alcançando e a evolução que vem construindo consigo mesma.
Em resumo, o que posso dizer?
Um dos melhores álbuns lançados neste ano. Cada vez mais, Katy da Voz e As Abusadas demonstram ser compositoras da putaria de primeira qualidade. Mas elas também estudam novas possibilidades, crescem como artistas e não ficam para trás por conta de estereótipos. Superam-se a cada trabalho e proporcionam uma dose de serotonina a todos que se permitem compreender a proposta do projeto e compartilham do mesmo objetivo: divertir-se através da música e dançar.
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