A REALIDADE CRUA DE SER LGBT
"Hetero Sigilo" estreia em São Paulo e leva público a repensar sobre o modus operandi de ser LGBT
Douglas Barbosa · 02 de setembro de 2026

Criada através de um apoio coletivo, a peça "Hetero Sigilo" é protagonizada, idealizada e escrita por Bernardo Dugin que debate sobre todas as amarras sociais no crescimento de uma pessoa LGBT.
Terça-feira em São Paulo, dia de chuva, mas isso não impede que o Teatro Itália esteja repleto de pessoas. O público, em sua maioria, é conhecido nas redes sociais: influenciadores, atores e pessoas da “nata criativa”, como muitos dizem. Tudo isso só demonstra o quanto a estreia da peça “Hetero Sigilo”, de Bernardo Dugin, era esperada por muitos em São Paulo.
Primeiro, vamos dizer que é lindo ver a estreia de uma peça. Afinal, é um momento de se jogar aos lobos e entender se uma proposta será bem recebida. Bernardo tem apenas duas cadeiras, uma mesa, um espermatozoide sobre sua cabeça, uma máscara fetichista e o seu próprio corpo para descrever os cenários, a narrativa e os sentimentos. E faz isso com uma criatividade imensa e uma delicadeza que, mesmo nos momentos mais descontraídos, faz você se pegar pensando sobre o seu próprio passado.
A peça é uma reflexão mista de diversos pontos: desde a descoberta de sabermos quem somos, e falarei no plural, pois não é segredo que faço parte do movimento LGBT, passando pelas inseguranças de viver sob as regras de uma sociedade, pelo que é ouvido durante o desenvolvimento até a fase adulta e chegando até mesmo ao desejo, ao sigilo e às conversas que queríamos esquecer, mas que, naquele momento, fazem você relembrar que passou pelo mesmo.
Bernardo desenvolve humor, críticas sociais e, o pior: revela os segredos mais obscuros para pessoas que, às vezes, possuem o mesmo segredo. Você termina a peça se perguntando se realmente está vivendo uma simulação de algo que criou para se proteger de si mesmo ou se aquilo é, de fato, você.
O que torna o teatro uma coisa completamente poderosa é a capacidade de, apenas com duas cadeiras, eu imaginar um carro; de, mesmo sem ver nada ao seu redor em uma cena de webcam, lembrar de histórias parecidas ou até mesmo de flashbacks próprios.
“Hetero Sigilo” demonstra que, mesmo sem conhecermos referências de quem somos ao nosso redor, nossa mente é realmente conectada e nossas atitudes são uma espécie de modus operandi. Acabamos nas mesmas situações para tentar, ao máximo, nos aproximar de uma felicidade que acreditamos merecer. E, pelo menos, nunca chegaremos, às vezes, ao mais próximo de algo tão claro e saudável até que o armário se quebre e, por fim, o sigilo acabe.
Hetero Sigilo
- Teatro Itália, em São Paulo
- Sessões às terças e quartas, até o dia 28 de outubro
- Ingressos pelo Sympla
