DONA DO CHANEL
ISMA fala sobre carreira solo, Whole Festival e projetos futuros
Douglas Barbosa · 20 de outubro de 2026

Com carreira em transformação, artista aposta na mistura entre funk, pop e eletrônico, comenta as críticas ao uso de inteligência artificial e se prepara para realizar o sonho de integrar o line-up do Whole Festival em sua primeira edição brasileira.
A trajetória de ISMA é marcada pela reinvenção, pela liberdade criativa e pela vontade de explorar novas possibilidades dentro da música. Agora em carreira solo, a artista transita entre os palcos como cantora e DJ, experimenta novas sonoridades e constrói uma identidade artística que ultrapassa os limites de um único gênero musical. Entre o funk, o pop e a música eletrônica, ela vive uma fase de descobertas que reflete tanto suas experiências pessoais quanto suas ambições profissionais.
Um dos próximos capítulos dessa jornada será sua participação no Whole Festival Brasil, que chega ao país pela primeira vez e representa a realização de um desejo antigo da artista. Conhecido por sua conexão com a música eletrônica e a cultura LGBTQIA+, o festival marca um momento importante para a cena brasileira e abre espaço para diferentes expressões artísticas.
Em entrevista ao Lente Oposta, ISMA falou sobre os desafios da carreira solo, o lançamento de “Chanel”, as discussões em torno da inteligência artificial na produção audiovisual e os planos de desenvolver um EP voltado à música eletrônica. A artista também revelou detalhes sobre a preparação para o festival, o projeto de vinil de Made in Cohab e a intimidade que compartilha com o público em seu projeto Tempero de Boneca.
Carreira solo: liberdade para experimentar e se reinventar
Assumir uma carreira solo tem sido uma experiência de autoconhecimento para ISMA. Embora o processo traga desafios que vão além da criação artística, a possibilidade de explorar novas ideias e encontrar caminhos próprios tem se mostrado fundamental para essa fase.
“Uma grande descoberta de mim mesma. Produzir arte solo é mais diferente do que pensei, mas é muito gostoso. Estou me conhecendo cada vez mais e me sinto mais livre artisticamente, porém desafiada mercadologicamente”
Essa liberdade também se manifesta na maneira como a artista organiza suas apresentações. Ao combinar os trabalhos como cantora com os DJ sets, ISMA encontrou uma forma de renovar seu repertório, tornar as performances mais dinâmicas e ampliar suas possibilidades profissionais.
“Antes eu apenas cantava e me sentia fazendo a mesma coisa o tempo todo, a ponto de eu enjoar das minhas próprias músicas. Agora, com o DJ set no meio disso, estou sempre atualizando ele com músicas novas e cada performance é diferente. Eu amo fazer os dois”
Para ela, a combinação também funciona como uma estratégia para movimentar a agenda e manter o contato com diferentes públicos, sem abrir mão da experimentação.
“Chanel”: estética, autonomia e liberdade
Em seu lançamento mais recente, “Chanel”, ISMA utiliza o universo da estética capilar para desenvolver uma reflexão sobre liberdade e autonomia. A música parte de uma referência visual e cotidiana para explorar questões que ultrapassam a aparência, mantendo uma abordagem divertida e lúdica.
“Chanel parece falar apenas de cabelo, mas explora liberdade e autonomia de uma forma divertida e lúdica. Eu amo me aprofundar em temas e explorar esse universo da estética do cabelo, linkando com a ideia de liberdade. Resultou em um trabalho muito gostoso, estou feliz demais com o resultado”
A proposta acompanha uma característica importante de sua produção: a capacidade de transformar referências estéticas em narrativas que dialogam com identidade, comportamento e expressão pessoal.
Mais do que apresentar uma nova música, “Chanel” integra um momento em que a artista busca ampliar os caminhos de sua obra e experimentar diferentes formas de comunicar suas ideias.
Inteligência artificial e os limites da criação artística
O videoclipe de “Chanel”, desenvolvido com o uso de inteligência artificial, também colocou ISMA no centro de discussões sobre tecnologia, criatividade e os impactos dessas ferramentas na produção cultural.
A recepção crítica trouxe questionamentos sobre o recurso e sua utilização no audiovisual. Para a artista, lidar com opiniões divergentes faz parte de uma experiência que, ao longo de sua trajetória, já envolveu julgamentos relacionados à sua própria existência.
“Não é fácil lidar com isso, nunca foi. Por ser quem sou, eu sempre fui criticada apenas por existir. Sempre soube que iria rolar o questionamento sobre o clipe de IA, mas, na hora que você vê acontecendo mesmo, é embaçado”
ISMA afirma que está buscando compreender tanto suas próprias reações quanto as preocupações do público, reconhecendo que a sociedade ainda está aprendendo a lidar com uma tecnologia relativamente recente.
“Não acredito que vamos abandonar a IA, nem devemos, mas espero que consigamos nos educar sobre formas saudáveis de utilizar”
Ao defender a escolha para o videoclipe, a artista destaca que a tecnologia estava alinhada à proposta estética e futurista que desejava desenvolver. Na sua avaliação, o recurso permitiu explorar imagens que não seriam possíveis de realizar da mesma maneira no mundo real.
Ao mesmo tempo, ISMA estabelece uma distinção entre o uso criativo da ferramenta e a dependência cotidiana da inteligência artificial, especialmente quando ela substitui experiências pessoais e processos de elaboração individual.
“Tem gente que não escreve mais um texto de feliz aniversário, pede para a IA fazer, não posta mais uma foto de dia a dia na academia sem edição do chat. Isso sim, para mim, é um problemão. Estamos perdendo o exercício de pensar, de lidar com o sentimento e a realidade do que somos!”
A discussão revela uma artista disposta a experimentar novas tecnologias, mas que também reconhece a importância de refletir sobre seus efeitos. Para ISMA, a questão não está apenas na ferramenta utilizada, mas na intenção e na maneira como ela é incorporada ao processo criativo.
Whole Festival Brasil: a realização de um sonho

A participação de ISMA no Whole Festival Brasil representa mais do que um compromisso na agenda. A artista já desejava integrar o line-up do evento e chegou a receber um convite para a edição realizada na Alemanha, que não conseguiu participar.
Agora, com a chegada do festival ao Brasil pela primeira vez, ela terá a oportunidade de concretizar parte desse sonho em território nacional.
“Sempre foi meu sonho estar no line do Whole. Já havia sido convidada para a edição da Alemanha, mas não foi possível. Agora, estando na edição do Brasil, me sinto realizando um pouco desse sonho”
O convite para a edição brasileira veio de Asafe, amigo e produtor que acompanha e apoia sua trajetória desde o início. ISMA destaca a importância dessa relação para sua caminhada profissional e demonstra carinho ao falar sobre a oportunidade.
A estreia brasileira do Whole Festival também representa um momento significativo para o público interessado em música eletrônica e nas diferentes manifestações da cultura LGBTQIA+. A chegada de um evento com essa identidade ao país amplia o diálogo entre artistas, comunidades e cenas musicais, criando oportunidades de conexão entre diferentes públicos.
Para ISMA, integrar esse contexto significa levar sua identidade artística a um espaço que sempre desejou ocupar.
Uma apresentação entre sucessos e novidades
A preparação para o festival tem sido intensa. ISMA reservou o mês de outubro para trabalhar nos detalhes da apresentação, buscando equilibrar músicas que já fazem parte de sua trajetória com novidades que ainda estão em desenvolvimento.
O repertório deve incluir alguns de seus maiores hits, além de conteúdos inéditos que a artista está preparando especialmente para essa nova fase.
“Exato, será uma mistura dos maiores hits com algumas novidades que estou criando. Está em processo ainda, tirei o mês de outubro para lapidar essa apresentação. Vai ser icônico”
A expectativa é que o show reflita a transformação musical que ISMA vem experimentando, aproximando diferentes referências e explorando novas possibilidades de performance.
Ser uma artista trans em um mercado ainda desafiador
A presença de ISMA em festivais e espaços dedicados à música eletrônica também abre uma discussão sobre representatividade e oportunidades para artistas trans no mercado brasileiro.
Ao avaliar o cenário atual, a cantora reconhece que o preconceito ainda representa um obstáculo para a consolidação de carreiras na indústria musical. Ao mesmo tempo, identifica avanços impulsionados por iniciativas que ampliam a visibilidade e criam oportunidades para pessoas trans.
“Olha, nesse momento é desafiador, pois sabemos que o grande mercado ainda é muito preconceituoso. Porém, me sinto privilegiada em determinadas áreas porque existe um movimento cada vez maior de apoio à causa trans, nossas pautas estão avançando”
A artista destaca especialmente as festas ligadas à música eletrônica, que, em sua percepção, têm demonstrado maior atenção à contratação e à valorização de artistas trans.
“Muitas festas, sobretudo de eletrônica, têm olhado de forma cuidadosa para artistas como eu e dando oportunidade. Aproveito dessas brechas e vou fazendo o meu”
Sua fala evidencia a importância de espaços que não apenas promovam diversidade em seus discursos, mas também ofereçam oportunidades concretas de trabalho, visibilidade e desenvolvimento profissional.
Nesse contexto, a participação no Whole Festival Brasil ganha uma dimensão que ultrapassa o aspecto musical: também integra um movimento de ocupação de espaços por artistas que historicamente enfrentaram barreiras de acesso à indústria cultural.
Do funk ao eletrônico: os próximos passos de ISMA
A transformação musical vivida pela artista não se limita às apresentações como DJ. A experiência com os sets também tem despertado o desejo de desenvolver um projeto inteiramente voltado à música eletrônica.
ISMA já está em processo de produção de um EP que deve explorar esse universo sonoro, ampliando as possibilidades de sua identidade artística.
“Quero produzir um EP de música mais voltada para o eletrônico. O DJ set tem me feito mergulhar nesse universo e isso está me inspirando a fazer um projeto todo voltado para isso. Já estou em processo de produção, estou amando, está tomando forma ainda”
A ideia acompanha uma mudança na maneira como a artista enxerga sua própria sonoridade. Se antes o funk ocupava o centro de suas referências estéticas e musicais, hoje o pop e o eletrônico também assumem papéis importantes.
“Sou uma mistura. Há pouco tempo, eu achava que o funk era o principal fio condutor estético e sonoro da minha obra. Hoje já me sinto em transformação, o pop e o eletrônico têm falado alto demais também”
Em vez de estabelecer uma definição fixa para seu trabalho, ISMA prefere permitir que diferentes influências se encontrem de acordo com as experiências que atravessa.
“Estou dando mais espaço para essas estéticas se misturarem e ver no que resulta. Meu produto não tem uma definição fixa também, ele varia de acordo com o tempo e os processos que eu vivo, e ele tem que fazer sentido para mim acima de tudo. Não me importo em ser incompreendida por alguns”
Essa perspectiva reforça a ideia de que sua carreira está em constante construção, aberta a mudanças e sem a necessidade de permanecer vinculada a uma única identidade sonora.
Made in Cohab: a música também ganha formato de vinil
Entre os projetos que conectam ISMA à história da música está a iniciativa de lançar Made in Cohab em vinil. O formato, que atravessa gerações e permanece relevante entre colecionadores e entusiastas, representa uma oportunidade especial para a artista materializar seu trabalho em um suporte histórico.
“Estou comprando uma vitrola só para ouvir meu disco. Acho incrível uma artista como eu vender esse produto que é histórico na cena da música. O vinil é um marco mundial e fico honrada em proporcionar isso para meus fãs, é uma forma de valorizar a história da música no mundo”
A iniciativa demonstra o interesse em oferecer ao público uma experiência que vai além do consumo digital, aproximando os fãs de uma tradição importante da indústria fonográfica.
Em uma época marcada pelo streaming e pelo acesso imediato às músicas, o vinil também representa uma forma de colecionar, preservar e criar uma relação mais material com a obra de um artista.
O disco de Isma está disponível na pré-venda pelo site da Romaria Discos.
Tempero de Boneca: a intimidade por trás dos palcos
Além da música, ISMA vem explorando outras maneiras de se conectar com seu público. Em Tempero de Boneca, a artista apresenta uma faceta mais íntima de sua personalidade, mostrando interesses e experiências que nem sempre aparecem em suas performances.
A proposta surgiu da vontade de aproximar a pessoa por trás da persona artística do público que acompanha seu trabalho.
“Surge da necessidade de me humanizar no meio de todo esse personagem que eu criei de mim mesma. A ISMA é isso também, é caseira, adora cozinhar para quem admira, adora ouvir histórias. Enfim, eu quis mostrar uma versão mais íntima minha”
O projeto permite que o público conheça outros aspectos de sua vida, criando um espaço de troca que não depende exclusivamente de lançamentos musicais ou apresentações. “E a cada episódio eu sinto que acertei muito, estou amando!” comenta.
Ao compartilhar momentos cotidianos, ISMA amplia a compreensão sobre sua identidade e mostra que a construção de uma persona artística não precisa apagar as experiências pessoais que existem por trás dela.
Uma colaboração dos sonhos e o futuro da artista
Quando o assunto é uma colaboração musical dos sonhos, ISMA não hesita em mirar alto. A artista revela sua admiração por Cardi B e deixa claro que está aberta a imaginar encontros que ultrapassem fronteiras.
“Amo a Cardi B, bora sonhar alto mesmo, o céu é o limite”
A resposta combina com o momento que vive: uma fase de experimentação, ampliação de horizontes e busca por novas possibilidades dentro e fora do Brasil.
Entre o desenvolvimento do EP eletrônico, a circulação como DJ, os projetos audiovisuais e a valorização de diferentes formatos musicais, ISMA demonstra interesse em construir uma carreira que acompanhe suas transformações pessoais e artísticas.
Sua participação no Whole Brasil surge, assim, como mais um passo nessa trajetória. Ao realizar o desejo de integrar o line-up do evento, a artista também encontra uma oportunidade de apresentar ao público uma versão atualizada de seu trabalho, marcada pela mistura de referências e pela liberdade de experimentar.
Sem se prender a rótulos ou a uma única direção musical, ISMA segue construindo seu próprio caminho. E, em uma fase na qual o funk divide espaço com o pop e a música eletrônica, sua principal definição talvez seja justamente a disposição de continuar mudando.
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